
Ang Lee foi um dos cineastas que fizeram a minha cabeça.
Há dezesseis anos, vi “O Banquete de Casamento” em uma VHS maltratada e aprendi uma ou duas coisas sobre família, instituição sacrossanta criadora de bárbaros, aleijados e dementes. Depois, “Comer, Beber, Viver” e “A Arte de Viver” confirmaram aquelas mesmas coisas assim de mim para mim, ainda que eventualmente pela sua negação. Não sei o que é, mas eu vejo o caos justamente nas exceções.
“Razão e Sensibilidade”, a melhor adaptação cinematográfica de Jane Austen (ao lado do “Orgulho e Preconceito” de Joe Wright), primeiro filme de Lee nos EUA, e “Tempestade de Gelo” confirmaram o olhar ao mesmo tempo sutil e incisivo do diretor sobre essa camada de gelo fino que é a vida em sociedade, seja ontem, hoje ou amanhã. E eu ainda me lembro da sessão de “O Tigre e o Dragão” no ParkShopping, em Brasília, um filme decididamente anormal em seu flerte discreto, estiloso, com o subgênero wuxia pian.
“Hulk” é um dos poucos filmes dignos de serem chamados assim, de “filme”, na horripilante e interminável onda de adaptações de HQs. Lee fez um filme que não nega a sua origem (vide a montagem) e, sem arrogar ares de autoimportância, diz olá para Homero. E, por fim, “O Segredo de Brokeback Mountain”, que dispensa apresentações e adjetivações apressadas.
“Taking Woodstock” é uma crônica sobre o Festival de Woodstock e seus arredores a partir de uma crônica familiar que talvez não funcione tão bem. É um filme tranquilo, típico do diretor em seu observar compassado e eventualmente compassivo. Interessante como Lee filma a transformação de uma cidadezinha, invadida por hordas de hippies durante o Festival, mas esse olhar, vá lá, antropológico não perdura por muito tempo.
Por outro lado, é como sempre econômica e sugestiva a maneira como o diretor registra os jovens da época. Uma cena passada dentro de uma kombi é particularmente competente, trazendo uma das viagens de ácido mais bacanas que eu já experimentei, em um filme ou fora dele. Ao se manter a uma certa distância do Festival em si, Lee pode se fixar em umas poucas pessoas e nos arredores e, ao mesmo tempo, valorizar bastante as imagens da multidão inacreditável que acorreu ao local para os famigerados “três dias de paz, amor e música”.
O filme não chega a ser um retrato geracional, o que é um problema, uma vez que a crônica familiar que o permeia me parece esquemática e forçada. O protagonista é talvez o único com estofo ali, palpável, crível. A caricatura que é sua “mamãe íidiche” chega a ser constrangedora em certas passagens, assim como o diálogo final com o pai. Uma pena.
A mãe, interpretada por Imelda Stanton, excelente atriz que nada pode fazer com o que tem em mãos, é um desastre dramatúrgico em todos os sentidos, um enorme senão dentro do filme. Trata-se de um irritante estereótipo de judia imigrante, asquenazita (judeu proveniente das Europas Central e Oriental), que não perde uma oportunidade de, com seu sotaque carregado, falar sobre os pogroms e a perseguição nazista e esconde uma fortuna dentro de um armário, indiferente ao fato de o negócio da família, no começo da história, estar indo por água abaixo. Nunca pensei que fosse ver personagem tão grosseira em um filme do diretor.
Ficam algumas sequências e personagens memoráveis (o grupo de teatro hippie e sua “releitura” de “As Três Irmãs”, de Tchéckov, o (a) guarda-costas interpretado por Liev Schreiber, a já citada viagem de ácido em uma kombi, o passeio de moto com um policial através da multidão) neste que é o filme menos bem articulado de Ang Lee.
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