O manda-chuva da Fórmula 1 Bernie Ecclestone deu uma entrevista aterradora ao jornal britânico The Times onde fez vários elogios rasgados ao autoritarismo e às ditaduras. O que me assusta são os débeis mentais sentados em suas poltronas balançando as cabeças e concordando com os absurdos vomitados por Ecclestone. Há alguns anos, quando Felipão elogiou Pinochet (lembram disso?), senti o mesmo nojo que sinto agora. Dentre outras sandices, Eccles evacuou o seguinte:
Apesar de parecer terrível dizer isto, com exceção do fato de Hitler ter se deixado levar em um determinado momento (sic) e de fazer coisas que não sei se realmente queria fazer ou não (sic), o certo é que ele estava em uma posição de mandar em muitos e conseguir com que fizessem as coisas (sic). No final ele acabou se perdendo (sic), e portanto não foi um bom ditador (sic), porque ou sabia o que estava acontecendo (ao seu redor) e insistiu nisso ou simplesmente foi condescendente… de qualquer maneira, não agiu como um ditador (sic!).
Os diagnósticos dele de que as democracias não funcionam muito bem e que foi um erro apear Saddam Hussein do poder no Iraque (na visão dele, a única pessoa capaz de controlar o país) não são menos doentios.
É um exemplo perfeito desse fascismo soft travestido de senso comum, o tipo de coisa que eu cansei de ouvir em mesas de boteco e churrascos com famílias. São opiniões “fortes” de pessoas “vividas”, que já viram “um pouco de tudo” e sabem muito bem do que estão falando, ao contrário desses “intelectuais que passam a vida mergulhados nos livros e se esquecem de viver a vida”. Essas pessoas “centradas”, que sabem “como a vida funciona”, entendem que a única saída para a pouca vergonha dos políticos, por exemplo, é fechar o Congresso (“os militares sabiam das coisas”). São os mesmos indivíduos que sonegam impostos, corneiam as esposas porque “os homens têm as suas necessidades, é um troço assim biológico” e contam “piadas inocentes” envolvendo racismo e sexismo.
Eles penduram bandeiras do Brasil na sacada em época de Copa do Mundo e rezam para que os filhos e netos “não virem viados, porque isso desgraçaria a família”. São, em resumo, cidadãos exemplares, cientes de seus deveres e obrigações e muito, mas muito responsáveis e bem sucedidos. Alguns dão a bunda, o que em si não é um problema, é evidente, mas até mesmo isso é engolfado pela hipocrisia dessa canalha, se é que vocês me entendem.
Em tempo: o conto “Basta um verniz para ser feliz”, de Marcelo Mirisola, dá conta de tudo isso. Está no melhor livro dele, “O Herói Devolvido” (ed. 34), e pode ser lido AQUI.
Falou tudo. Seres completamente humanos, diz-se.
Medo desses reacionários. Medo!
E o pior é que tem gente que vai aplaudir a coragem do cara de expor seus pontos de vista.
O que mais me assusta é o fato de jovens “bem nascidos” e “educados” aderirem uma postura fascista radical ou velada. Os primeiros agridem e matam integrantes de minorias, e os segundos “apenas” destilam seu ódio a essas mesmas pessoas em mesas de bar, como você mencionou.
Medo!
Um pensamento de Marianne Moore diz que a necessidade da ordem no mundo exterior é reflexo da desordem do mundo interior Alguns versos são imagens inesquecíveis Abraço