OPÇÕES Quando eu estava no hostel, havia muitos lugares onde tomar café-da-manhã. Não que agora, aqui em Rehávya, haja menos opções. A questão não é essa. Há a possibilidade muito aprazível de permanecer na cama devorando um bom livro. Ou levantar-me e fazer um café e um sanduíche de pão integral ou pita e ligar o computador e me aterrorizar desde cedo com as notícias. Ou sair, subindo a Harav Herzog, que logo se torna rua Azza, e ir até um café, o Coffee Shop, poucos quarteirões acima, quase na esquina com a Mitudela. Ali, não é barato, mas é sempre bom pedir um suco natural ou um turkish coffee e uns ovos mexidos ou um sanduíche para acompanhar. No hostel, eu em geral esperava até dez e meia, onze da manhã, e então marchava para Jerusalém Oriental, para o Alayed, e comia um sanduíche de falafel, o que para mim valia como café-da-manhã e almoço. Preciso voltar ao Alayed qualquer dia desses, aliás.
COMPRAS Rehávya é um dos mais bairros mais bacanas de Jerusalém, e um dos mais caros, também (eu e meu shutaf temos muita sorte de pagar o que pagamos de aluguel). Mesmo em dias tão quentes, é gostoso sair de casa para ir ao mercado ou tomar um café logo ali. Há dois mercados nas redondezas: o mercado do Ladrão e o mercado do Louco. O mercado do Ladrão é o mais próximo, mas, dependendo do que você for comprar, a sensação de que está sendo assaltado é inescapável. Há poucos lugares em Jerusalém onde você paga 11 NIS por uma Carlsberg que, no supermercado mais próximo, na rua Ha Palmach em Old Katamon, custa 6,70 NIS. No mercado do Louco, subindo a Azza, um ou dois quarteirões após o Coffee Shop, os preços são mais amigáveis, e o dono é uma espécie de Syd Barrett dos mercadinhos hierosolimitas: sempre doidão. Mas todos são muito simpáticos comigo porque “Brasil!”, “Ronaldo!” etc. Aliás, até mesmo o Ladrão é sempre muito simpático comigo. Talvez porque eu sempre sou assaltado mantendo um sorriso na cara.
DESJEJUM Eu tenho saído muito pouco porque muita coisa (escritos, bem entendido) tem saído de mim por esses dias. Tem sido comum por esses dias combinar o café-da-manhã e o almoço em uma só refeição. O meu predileto: falafel sandwich. Nem preciso caminhar muito. Saio do prédio, atravesso a rua e dou de cara com o aprazível From Gaza to Berlim, um pé-sujo que é a minha cara – e o meu estômago.
ALMOÇO Ontem fui com meu shutaf almoçar perto do shuke, na rua Agripas. Shuke é tipo uma feira livre. As coisas são bem mais baratas nos shukes do que em qualquer supermercado. A gente almoçou em um restaurante familiar. O meu shutaf come ali todas as sextas com outros brasileiros que vivem em Jerusalém. Eu bebi três Heineken e comi feito um monge. A rua e o shuke, onde fomos depois comprar algumas coisas, estavam lotadas. Todos se preparando para o shabat que começaria logo mais, à tardezinha, quando a cidade, finalmente, estaria tranquila.
SHABAT A cidade está tranquila. E eu também, exceto pela ansiedade de ter de escrever um texto que pode (ou não) vir a ser publicado por uma revista de gente grande. Ontem jantamos salada com peito de frango. À tarde, vi uns trechos de “Lawrence da Arábia” e fiquei pensando no quanto a grandiosidade do cinema de David Lean não é óbvia ou auto-importante. À noite, “Redacted”, de Brian DePalma, o único filme decente sobre a atual Guerra do Iraque, tirou o meu sono. O filme é terrível como devem ser os filmes de guerra ou qualquer filme povoado por seres humanos. Bagdá não está tranquila. Curioso que, terminado o filme de DePalma, zappeando, dei de cara com o horrendo “World Trade Center”, a pior coisa que Oliver Stone já fez. A enorme diferença entre um filme honesto e um filme desonesto, entre um filme que assume riscos e conta uma história terrível de forma crua e direta e um filme que não assume risco algum e transforma uma história terrível no pior tipo de dramalhão. Stone está a um passo de se tornar diretor de núcleo da Globo e entregar aqueles especiais nojentos de fim de ano.