Eu sempre odiei sentir medo. Eu me lembro de ir ao Cine Cultura, em Goiânia, e descer a Tocantins de volta para casa (morava na Anhanguera, perto do Teatro Goiânia), entre onze e meia-noite, naquele cagaço que todo mundo conhece e sente de vez em quando. Já fui assaltado. Não foi agradável. Nunca é. Nem mesmo quando o ladrão é gentil e não te premia com um soco ou um tiro.
Uma das coisas que fazem eu gostar tanto de Jerusalém é o fato de não haver o menor risco de eu ser assaltado a qualquer hora do dia ou da noite. Cansei de voltar a pé da Cinemateca (ontem fizemos isso) alta noite e, caramba, eu nem me lembro o que é sentir medo de assalto e caminho despreocupado, sem ficar olhando ao redor, sacando as sombras, vendo se não estou sendo seguido etc. e tal.
Outro dia fomos ao shopping ver “Star Trek”. Terminada a sessão, meia-noite e pouco, pegamos o ônibus e, em vez de vir para casa, fomos parar na garagem da empresa, pois aquela era a última viagem e o motorista não passaria de novo por Rehávya e adjacências. De repente, estávamos a uns cinco quilômetros de casa, em Talpyot. Pegar um táxi era proibitivo. Viemos andando. Ruas desertas, algumas até um pouco escuras, e tudo bem. Cortamos caminho por vielas e becos e coisas desse tipo. E tudo bem. Caminhando de mãos dadas por Jerusalém, uma da manhã, sem o menor receio.
Eu sinceramente acho que isso não tem preço.
Em São Paulo, Brasília ou Goiânia, se a sua esposa, por algum motivo, está na rua alta noite, você fica preocupado, não sossega enquanto ela não chegar e liga de cinco em cinco minutos para checar se está tudo bem. Em Jerusalém, se a sua esposa foi ao shopping e resolveu voltar caminhando para casa às onze da noite, você desliga a televisão, bebe um pouco de água, vai ao banheiro e depois para a cama, nessa ordem. Totalmente despreocupado. E pode até deixar a porta da sala destrancada para ela. Porque a entrada do prédio (não há porteiros, portões eletrônicos, muros eletrificados, câmeras de segurança) está sempre aberta.

Por incrivel que pareça ainda existem lugares assim, porém sempre no interior.
Lembro de ter ido passar umas férias na casa dum amigo meu que mora no centro de Floripa e ele me deu a chave do chalé que fica na praia da Daniela.
Caramba… Além da praia ser linda, ele vizinhava com diversos casarões todos c/muros baixinhos (alguns até sem cerca nenhuma), 24 hs por dia portões e janelas abertas bem como carros nas garagens. E isto em pleno verão.
Confesso que não dormi direito na primeira noite preocupada com qualquer barulhinho. Depois de uns dias relaxei.
Isto é de fato um luxo que será cada vez mais raro no Brasil, pois as grandes cidades a cada dia vão ficando repletas de delinquentes de todas classes sociais, infelizmente.