ISSO DE IR EMBORA.
Há pouco, uma ambulância rasgou a Harav Herzog em direção ao Hadassah e eu me peguei pensando: uma das últimas sirenes hierosolimitas que ouvirei. Antes, fui ao Mercado do Maconheiro (cabeludo, simpático, amarrotado, paz&amor, sorridente, desprovido de pressa: Maconheiro) e a mesma coisa: minha última ida ao Maconheiro para (1) comprar algo para almoçar e (2) papear com ele sobre a enrascada em que se meteu o Liverpool na UEFA Champions League.
Daí que resolvi não fazer uma derradeira visita a alguns lugares especiais para mim, como o Stardust Pub, o quarteirão árabe da Cidade Velha, a Ben Yehuda, o restaurante Alayed lá em Jerusalém Oriental, a Cinemateca, o Café Aroma da Jaffa, o Coffee Shop aqui perto de casa. Bem melhor será, depois de zarpar, ficar pensando sobre quando e como foi a minha última vez em cada um desses lugares, o que eu vi, senti, comi, bebi, pensei.
Ir embora sem se despedir é quase sempre uma boa ideia, não? Feito um criminoso de terceira, sem colarinho algum, dizendo: “Tanta coisa que não posso te dizer, Jerusalém”.
Até porque, mesmo que pudesse, não seria ouvido.
Isso de ir embora. Sair pelo mundo deixando uns pedaços de si aqui e acolá e também levando consigo uns pedaços daqui e d’acolá. Essa vivência toda que vai se acumulando e que não nos torna necessariamente mais espertos ou melhores, apenas um pouquinho mais inviáveis, dia após dia, graças ao amontoado de lembranças que giram e giram dentro da cabeça, e giram tão depressa e com tanta força que eu quase sinto o meu crânio se rachando todo.
Não cheguei inteiro a este lugar. Por que haveria de ir embora assim, inteiro?
A maioria das pessoas tem essa mania besta de, ao fim de um período em algum lugar ou depois de fazer alguma coisa, parar e se perguntar: o que eu aprendi? Em geral, aprendemos muito pouco ou nada e, de um modo ou de outro, estamos sempre indo embora.
Gatsby só foi entender isso segundos antes de ser baleado. Não foi?
Porque o mundo é mais ou menos o seguinte: subindo a rua onde moro (até amanhã, pelo menos), ela primeiro muda de nome (de Harav Herzog para Azza) e depois continua indo até a King George, lá em cima. Antes de chegar à King George, à esquerda, há um café chamado Restobar. Em 9 de março de 2002, o Restobar tinha outro nome, Moment, e sofreu um atentado a bomba. Onze mortos, cinquenta e quatro feridos. Do outro lado da rua, hoje, fica a tenda onde funciona o comitê que exige a libertação do soldado israelense Gilad Shalit, prisioneiro do Hamas desde 2006. Para libertar Shalit, o Hamas exige a soltura imediata, por parte de Israel, de 1400 prisioneiros palestinos. Dentre estes, os caras que planejaram o atentado de 9 março de 2002, no Moment.
O que eu aprendi?
O mundo é cheio de ironias doentias e superpovoado por coisas e seres irreconciliáveis. Ou, o que eu estou querendo dizer: não fossem palestinos e israelenses (e palestinos e palestinos, e israelenses e israelenses, porque ninguém concorda com ninguém aqui ou em qualquer outro lugar), seriam cananeus e jebuseus, ou marcianos e venusianos. Isso eu posso dizer que aprendi.
Ou nem isso: eu já sabia. E zeu.

























































